04 maio, 2011

Fechar a Porta (e Engolir a Chave)


Chegaram-me, provenientes de diversas fontes e pelas mais variadas vias, opiniões e manifestações de desacordo e mesmo menosprezo para com as minhas recentes intervenções sobre a política do nosso condado (inclusive sob a forma de não publicação de comentários meus num blog).
São geralmente dois os argumentos usados, curiosamente de lados opostos das barricadas da retórica: por um lado, o estafado estribilho “não serve para nada”; do outro, o radicalismo de propostas ousadas, como a da cobrança de fraque.
De uma coisa eu estou certo: as coisas não se alteram só porque escrevemos em blogs, porque esconjuramos a nossa impaciência nas redes sociais ou porque nos indignamos no seio do nosso círculo restrito de influências por causa da marcha desta nossa via crucis.
Há quanto tempo, tantos ilustres e reputados cidadãos têm vindo a apontar soluções e caminhos a seguir? Algum órgão de soberania se dignou ouvi-los ou aplicou alguma das suas receitas?
Para que surjam mudanças, insisto, o povo tem que forçar a barra, invadir as ruas, gritar e eventualmente nalguns casos, arriscar. Ou agora, que estamos subjugados ao garrote de um qualquer triunvirato institucional, passamos a conformar-nos com a nova desculpa, “não podemos fazer nada”?
Em Tunes e no Cairo, saíram à rua. Na Islândia, exemplo para alguns mais inconformados, também. Como antes, tão antes que já poucos recordam (mas tão relevante), na Polónia.
Para mudar, há que sair à rua, apanhar sol e chuva e vento e criteriosa e meticulosamente, apontar aos podres do sistema e torpedeá-los sem cedências e ininterruptamente; até que algo mude, efectivamente.
Alguns acham que esta é uma cruzada romântica. Crêem que as forças cívicas, as entidades financiadoras externas, algumas vozes credíveis dentro dos partidos, a consciencialização do povo, acabarão por levar à mudança; claro que isso é subestimar a dinâmica inercial de todos (e são muitos!) a quem este pântano convém e as fantásticas e oleadas máquinas de propaganda dos partidos “representativos”, últimos guardiões dos interesses instalados, a quem o tempo vai permitindo os adequados ajustes de discurso e atitude.
Por isso, temo seriamente, que com todas estas divagações, jogos de cintura, dispersão de movimentos cívicos e esperança cega no bom senso das elites a que hoje assistimos, tudo continue exactamente na mesma, ressalvando o aspecto cosmético. Em suma, estrume com apresentação nouvelle cuisine! E nós, acomodados, eternamente descontentes e a mandar palpites, reféns de jogos de (i)lógica completamente surreais.

Mas também já não nos espantamos, pois assumimos que todas estas idiossincrasias, dúvidas e angústias estão profundamente interiorizadas no núcleo a-dê-énico da alma portuguesa.
Afinal, o povo nem gosta por aí além de sair à rua.
Aliás, o povo muito poucas vezes se dignou descer à rua. Até mesmo num 25 de Abril qualquer, alguém teve que sair por ele.



(Por exaustão e por não ser charco de minha predilecção, dou por encerrado este ciclo de crónicas endo-socialo-políticas)


4 Comments:

Blogger Hipatia said...

Entendo a exaustão, mas não concordo com o fim da opinião expressa aqui ou seja onde for. Em alturas como esta, todas as opiniões são preciosas, mesmo que cada um se demarque de muitas mais do que aquelas com que concorda. Não vale desistir! Há demasiada gente que há muito já se demitiu até de pensar. Vá! É continuar que há quem leia, mesmo que caladinho :)))

04 maio, 2011  
Blogger Windtalker said...

Hmmm! Obrigado pela solidariedade, ó minoria (antes) silenciosa!

05 maio, 2011  
Anonymous henedina said...

"estão profundamente interiorizadas no núcleo a-dê-énico da alma portuguesa."
Sim ha coisas que nao mudam nos Portugueses.

07 maio, 2011  
Blogger Windtalker said...

Acabamos de ter mais uma confirmação: estamos convicta e absolutamente conformados com os sacrifícios que vamos ter que fazer nos próximos (quantos?) anos...e já ninguém anda indignado.
Afinal, talvez as prometidas penas só venham a tocar ao vizinho do lado...

08 maio, 2011  

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