07 dezembro, 2010

Estado de Graça


Entrámos, esquivando-nos enfim à noite hostil. A mesa acolheu-nos, mesmo em frente à porta, com pratinhos dispersos com um irresistível paio e torresmos de redanho, outros com rodelas de rábano, para limitar os danos, e umas quantas garrafas de vinho tinto de escolha, préviamente abertas. A atmosfera langorosa enroscava-se em nós e antes da chegada dos que ainda faltavam, caíram-nos à frente os cogumelos com azeite e ervas para rechear com queijo de ovelha derretido ao ponto.
Ei-los afinal, retardatários que irrompem soprados por rajadas agrestes, completando finalmente a franca e calorosa roda de amenas e libertinas memórias, oportuníssimos para a perdiz de escabeche.
Como passa a deslizar, plácido, imperceptível, subtilmente dissolvendo os secretos males de cada um, (o tempo) um intangível e resplandecente serão!
Cachaço no forno com batatas douradas e esparregado, histórias da vida e inventadas, bagaceiras várias, medronho e falso zimbro, tramas antigas, mitos desfeitos, projectos para o ano.
Em plenitude, deambulando por clássicas vielas seguimos fluxos de juventude inquieta e altruísta, desbravámos bares alegres e cativantes, acalentámos fantasias e ao longo da noite, agora cúmplice, deixámo-nos evaporar, embriagados.

Defrontámos de manhã um sol ousado, determinado a acompanhar-nos no derradeiro percurso. Beijado pelo rio cansado almejando o próximo meandro, o risonho casario do Vale do Guizo, indolente da amenidade da tarde e prazenteiro da Restauração, deu por si surpreendido com a nossa chegada tardia.
Enguias... primeiro, fritas, soberbas, depois a caldeirada (Oh!...deuses!). No salão, virtuosos do acordeão desfiavam, em despique reverente, temas exuberantes, frenéticos, nostálgicos.
Com o Sado em fundo, completámos o ritual. Abraçámo-nos. Despedíamo-nos cientes das incertezas, dos tantos escolhos nos caminhos, da perenidade dos momentos e dos afectos.
Até para o ano, sempre!...




5 Comments:

Anonymous henedina said...

O dia da Restauração é justo comemorar-se na restauração.

08 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

O dia do almoço era o certo para comemorar a Restauração.
As celebrações descritas, nada tinham de histórico-político...

08 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Estado de graça está associado a uma exaltante estimulação dos sentidos prolongando uma bonomia levitante. O atordoamento pós-"qualquer-coisa-sublime" é apenas um dos estados relaxantes subsequentes ao mesmo.

11 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Vou perguntar a Ratzinger se concorda.

12 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Não há edição possivel, apenas a desintegração! Espero que aprove.

...

Quanto ao Ratzinger, por influências divinas ou mais prosaicas, de alguma forma já deve ter ter passado pelo mesmo.

12 dezembro, 2010  

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