23 novembro, 2010

A Ordem das Coisas (V) - Expoentes de Lyapunov


Mantinham desde a juventude uma amizade cimentada pela solidariedade de quem, vindo das mais longínquas e remotas províncias, tem de vingar entre a competitiva e implacável intelligentsia da capital. Instintivamente vivaços, era transparente para eles que um sem-fim de oportunidades estava disponível, mesmo à mão de semear, para quem se plantasse no momento certo no socalco mais adequado e exposto ao sol e não se deixasse afectar por pruridos sobre os mais expeditos e eficazes métodos de escalar as agrestes falésias da vida.
Foi pois naturalmente que aderiram à sinuosa carreira política, terreno fecundo para as sementes das suas arrojadas ambições e viveiro de oportunidades inusitadas, o que permitiu o início de uma gestão ao mais ínfimo pormenor dos restritos circuitos de influência, de uma cadeia de negociação e cobrança de favores e da implantação de resistentes e flexiveis teias de dependência e subserviência.
Por essa altura, ambos consideraram conveniente a obtenção de um diploma (ninguém no país levava sequer a sério quem não fosse engenheiro ou doutor) e o respectivo sucesso académico demonstrou igualmente o nível surpreendente das suas prestações e força de vontade.
Entretanto, definidas as respectivas zonas de conforto, as suas opções conduziram-nos por percursos diferentes, mantendo no entanto, sempre a estreita colaboração que mútuamente os favorecia. E enquanto um deles preferia declaradamente os ambientes sorrateiros, de palmadinha nas costas e pequenas tramóias, o segundo, sedutor por natureza e aspirando à incensação, abalançava-se aos altos vôos da política com p grande, gerando nos círculos mundanos uma invulgar e estranha empatia.

Apanhado em diversas ocasiões na esteira de operações mais obscuras, sempre algum compadre lhe lançou a mão, aparecendo meses depois, numa fase inicial, presidindo a algum instituto tão conveniente quanto inútilmente criado, alguns anos mais tarde, como administrador de uma qualquer fundação uns quantos níveis acima, enquanto a acidez do tempo dissolvia as pilhas de papel que constavam dos seus processos. Estava sempre a par de tudo o que havia para saber.

O amigo, por seu lado, atingia cargos governamentais de estatuto progressivamente crescente, batia-se por causas polémicas e mediáticas e, muito pragmáticamente, foi tido em consideração pelos seus camaradas de partido quando tiveram que promover um empolgante novo líder. Daí à chefia do governo foi apenas um passo. A sua assertividade optimista serviu de exemplo e estimulou os cidadãos, a quem, enfim, auguravam um futuro promissor, optando estes espontâneamente por disfrutar de imediato o seu merecido bem-estar, investindo com igual entusiasmo tanto no essencial como no fútil. O país explodia de desenvolvimento. Era o tempo das novas tecnologias e oportunidades, das renováveis e positivas energias.

Um dia, a rede montada foi maior do que desleixadamente pudera prever e o seu nome voltou às manchetes, que não se coíbiam de relembrar todo o seu percurso esquivo. A posição que ocupava em destacada instituição ficou comprometida e foi obrigado a afastar-se. Tentou dissolver-se discretamente nas fátuas névoas dos inúmeros outros escândalos sonantes da praça, mas logo outra notícia o atirava de novo para a ribalta; o caso, desta vez, era sério. No entanto, nem tempo de nojo chegou a haver, ressurgindo pouco depois, agora com discrição, como presidente do conselho de administração de importante delegação africana de prestigiada e preponderante empresa multinacional. Afinal, os amigos sempre eram para as ocasiões!...

Et la crise arriva!... tão inesperada como o Natal, principalmente na perspectiva do perú, conveniente e gargantuescamente alimentado durante os meses precedentes. Não entrarei em detalhes, pois creio estarem em condições de me perceber perfeitamente! Caído em desgraça, apontado a dedo como aquele através de quem a ira dos deuses se abateu sobre o povo, foi lapidado nas eleições. Os seus afilhados e conhecidos, espúrios indivíduos, não queriam ver-se associados ao seu nome e nunca conseguiu evitar que este, nos compêndios académicos de Teoria Económica tivesse passado a designar formalmente uma economia sob efeito devastador de um vórtice colapsante. O país convertera-se entretanto numa imensa capoeira repleta de galinhas histéricas e desnorteadas, onde acabaram por se banquetear inúmeros lobos, alguns deles com estatuto de convidados de honra. Terminou tudo num infindável mar de penas!

...

Onze anos passados, num paraíso tropical, uma televisão apregoava em tom fanhoso e dormente a árdua mas sustentada ressurgência dos escombros de um pequeno estado, muito à custa de compromissos que o tornavam um entreposto de uma pujante potência oriental, uma plataforma dourada de acesso priveligiado ao mercado do núcleo saudável dos países ricos da região. No terraço com arrebatadora vista para um mar convidativo, três amigos já extremamente à-vontade nos férteis meandros dos negócios em territórios com notórias debilidades no âmbito dos direitos humanos, brindavam enquanto discutiam as entusiasmantes notícias:

- Está na altura de voltar, não achas, pá? Creio que podemos dar o nosso contributo... Bom! Então à nossa, meu caro Pi Lin!...



EXPOENTES DE LYAPUNOV

Caracterizam a taxa média de divergência entre duas trajectórias nas proximidades de um atractor estranho, após perturbação das condições iniciais.
Um expoente principal positivo é indicador um sistema típicamente caótico; mais que um expoente positivo define o conceito de Hipercaos.













À memória de Benoit Mandelbrot

9 Comments:

Anonymous henedina said...

É engenheiro? Mesmo engenheiro?

23 novembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Deverei considerar a questão como um comentário ao publicado, ou uma mera pergunta de foro estritamente extra-blog?

23 novembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Pela primeira vez começo a acreditar que é tímido.
Era humor com o post a misturar com o windtalker profile. "Mesmo".
Não estou a tentar obter nada do foro estritamente extra-blog e acho que não o deve fazer.
(eu sou como os padres, olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço :)

23 novembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Muito bem!
A minha provocação surtiu efeito!...
É que sou mesmo!...
Sou "fellow" de Boris Vian (deste em particular, irmão de alma), Robert Louis Stevenson, Hedy Lamarr, Rowan Atkinson, Osama bin Laden e outros ilustríssimos...
No fundo, acabo por ser aquilo que acreditam que eu sou...e engenheiro.

24 novembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Eu sou como os padres, olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço mas só nos blogues porque me exponho e não estava a pedir para se expor.
"No fundo, acabo por ser aquilo que acreditam que eu sou", a sério?
Esta frase é letal, eng.

24 novembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Pus na google "cabo dos..." e saiu-me uma página castanha. O windtalker mudou o template? E, acredite ou não, tinha posto "cabo dos trabalhos".
Se a leitura não for feita de forma literal, diria lapso freudiano.
Não faça leitura literal, senão eu tb faço de Boris Vian que considerava que as mulheres ou eram bonitas ou inteligentes. Both, never.

27 novembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Uma réplica condigna extravasaria em muito o âmbito de uma mera caixa de comentários!
a) Não fiz leitura literal. As imagens ou ideias perdem o charme com a literalidade.
b)A misoginia de BV: um preconceito que advém em grande parte, de leituras literais.

28 novembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Qual é o seu livro preferido de BV?

28 novembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

A questão torna-se redutora, considerando o âmbito da obra. Não tenho livro preferido. A resposta será pois, simplista:
1 - As crónicas e as novelas
2 - J'Irai Cracher Sur Vos Tombes (género muito "noir")
3 - L'Écume des Jours ("O" único romance de amor)
4 - Os poemas
5 - Os Ensaios Patafísicos (as equações morais, o cálculo numérico de Deus...notáveis!)
...

PS : Henedina, para desenvolvimento de temas, sugiro um espaço mais amplo, p.e email (ver perfil)

29 novembro, 2010  

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