14 dezembro, 2010

Eppur Si Muove




É vasta a lista dos eruditos injustiçados e desprestigiados pelas rupturas de conceito que ousaram apresentar aos seus contemporâneos. Ocasionalmente ocorre lembrar-me da mítica expressão em título que com o tempo se tornou um libelo anti-obscurantista e do episódio que lhe esteve na origem, no qual Galileu, por ordem do tribunal, após renegar publicamente as suas revolucionárias descobertas sobre os movimentos relativos da Terra e do Sol, a teria pronunciado em surdina. No entanto, o motivo porque a recordo não é tanto a celebração de qualquer vitória da luz sobre as trevas ou a lição da certeza perseverante do sábio (embora após uma reflectida tibieza perante incomensurável adversidade) mas antes, quando confrontado com uma ideia, ocorrência ou desafio mais refinado ou improvável, o de forçar-me a encarnar no papel de um pouco plausível inquisidor de boa fé no julgamento de um qualquer Galileu e prudentemente tentar encontrar indícios que pudessem levar a distanciar-me ou mesmo a frontalmente discordar do previsível veredicto final. Um instinto de alcançar mais longe que o imediato e mais além que a minha confortável vizinhança, sem me deixar intimidar seja por que cânones intuídos e vigentes, ou mesmo pelo que os meus próprios olhos, por vezes enganadoramente, testemunham. Porque no fundo, tenho tendência a desacreditar de uma época abstrusa em que nos é facultado compartilhar momentos com um moderno e brilhante executivo trazendo consigo e ao mesmo tempo, tanto um “gadget” “hitech” de “design” futurista como uma inescrutável e esotérica pulseirinha milagrosa.

Os reptos que hoje enfrentamos e com que nos confrontaremos no futuro exigem novas formas de articular o pensamento e a compreensão do mundo e das sociedades sofisticadas e em evolução constante, como aqueles dos quais fazemos parte. Esta complexidade emerge a partir de um crescente número de variáveis independentes que começam a interagir e a correlacionar-se de forma imprevisível. Estes sistemas cada vez mais complexos são evolucionários e abertos, processam e incorporam ou adaptam toda a nova informação disponível de um ambiente mais alargado, não são simples e preditivos, mas sim não lineares, e alteram as suas reacções em função de estímulos imediatos.
O âmbito de enquadramento é excepcionalmente lato sendo pois vital para sua plena compreensão, uma maior interdisciplinaridade na análise dos problemas, no aprofundamento do conhecimento sobre as estruturas, os comportamento e a dinâmica das inúmeras fracções que os integram.

Há que dar pois, um passo atrás.
  1. O todo é sempre maior que a soma das partes e a sua compreensão não pode ser atingida investigando apenas alguns dos seus módulos estanques (será o aquecimento global uma irreversibilidade, função exclusiva do aumento do CO2?).
  2. Pequenas perturbações em sistemas discretos ou neutros podem resultar em alterações significativas e inesperadas tendo em conta o âmbito alargado com o qual interagem e se relacionam (Quais as últimas consequências da introdução de uma espécie exógena num ecosistema equilibrado?).
  3. A ressurgência ou emergência sobressai como conceito chave. Corresponde a propriedades ou padrões de alto nível, que se formam com as interacções de agentes locais e pontuais, de forma absolutamente espontânea. Distinguir a componente emergente de um fenómeno dá-nos indicações sobre o tipo de informação à qual devemos prestar atenção e ajuda-nos a colocar as questões mais pertinentes sobre os sistemas em análise. (A partir de que epifenómenos um manifesto de massas se torna uma avalanche social imparável?)

Uma forma de pensamento estratégico e igualmente não linear impõe-se desde logo para reconhecer as pistas das mudanças eminentes. Como para o inusitado inquisidor sensato, a perspectiva é importante e é fundamental saber reconhecer o que estamos a ver ou a testemunhar e enquadrá-lo no seu devido contexto (local-global). A visão do mundo através das lentes da complexidade deve estimular-nos a reavaliar e rever os nossos actuais métodos de análise, os nossos conceitos, planeamentos, metodologias e consequentemente a realinhar as directrizes da nossa abordagem aos múltiplos e simbióticos mundos que também compartilhamos.


Com a devida reverência aos trabalhos sobre “Complexidade” de Irene Sanders


6 Comments:

Anonymous henedina said...

1-Claro que não.
2-"o bater de asas de uma borboleta".Na Austrália introduziram os camelos. Nas sacas que os cobriam havia palha. Agora é uma praga que se espalhou por toda a Austrália.
3-"Agir localmente" para mudar de "forma global". Isto em inglês resulta melhor.
Li um livro há 3 anos chamado cisne negro. As vezes, a análise não deve ser complexa porque o imprevisto (cisne negro bom ou mau) é simples. Esse livro fala da crise económica 3 anos antes do eclodir da crise.
Eppur si muove este post mas o tamanho e a adjectivação para inquisidores mais prováveis pode afastá-los, se me é permitido opinar sem ofender.

14 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Eis de novo um comentário que merecia espaço mais amplo para resposta e debate!
Os livros "Fooled By Randomness" e "O Cisne Negro" do N.N.Taleb estão muito na origem da minha curiosidade pelas idiossincrasias deste nosso mundo e embora estando de acordo com o facto de o imprevisto ser/parecer simples (ele pode provavelmente ter origem numa ressurgência!), as suas potenciais consequências recomendam uma abordagem multidisciplinar, uma estratégia criativa, um pensamento dinâmico.

...

É uma opinião nada ofensiva e da qual eu próprio partilho. Embora admirador de uma escrita depurada e concisa, sou incapaz de estruturar as minhas linhas de uma forma escorreita. O acto de escrever é para mim de muita paciência, minucioso e rebuscado.

15 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

"O acto de escrever é para mim de muita paciência." O acto de escrever para mim é imediato, sem vírgulas e, por vezes, pouco legível. O "meu" sentido de humor que gosto que o entendam mas que em escrita pode levar facilmente a ofenderem-se porque pode passar por "gozação".
Eu gosto do ping-pog mas em caixa de comentários já deu sarilho algumas vezes. Estou mais prudente ou espero estar.

19 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Talk Windtalker, senão vou pensar "facilmente a ofenderem-se" ou o acto de paciência ainda vai a meio?

21 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

...tão a meio que vou ter de o partir em 2!...

22 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

Que sorte, logo 2.

22 dezembro, 2010  

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