22 dezembro, 2010

As Bençãos (Uma Espécie de Conto de Natal) - [ 1 ]





Foi atingida por um caprichoso relâmpago, fugia o bando de crianças em busca de refúgio da inesperada e aziaga intempérie, por um verde prado entremeado por retorcidas azinheiras. Era até então uma menina saudável, alegre, determinada, com uma curiosidade latente e muito zelosa das suas obrigações.
Alguns vizinhos tendo acorrido aos apelos de aflição conseguiram milagrosamente reanimá-la, mas o implacável ferrete da tormenta tinha deixado a sua indelével marca para sempre; uma permanente crepitação nos ouvidos, uma esgrouviada e extravagante exoftalmia no olho direito, um braço esquerdo inchado, trambolho que nunca reverteu totalmente com o tempo, e uma cabeleira em farripas impenetráveis como um novelo de arame farpado, faziam desde então parte da imagem que o espelho de futuro lhe retribuiria.
Retomou receosa a rotina da sua vida na aldeia mas, aos poucos, ia sendo deixada de lado pelos seus companheiros de diversão e os alguns sustos que o seu súbito aparecimento inadvertidamente causava nalguns habitantes foram incrementando a desconfiança das gentes da terra a seu respeito. Logo os abrenúncios com base nos rumores de conluios com o maligno vieram a lume. Afinal, quem senão um endemoninhado sobreviveria tão disforme, tão desprezado por Deus e pelos anjos, após ter sido abrasado por um raio?
Sentindo progressivamente que a filha se tornava uma pária daquela acintosa e fechada comunidade, encomendaram-na aos cuidados do padrinho, amanuense remediado que há muito vivia na cidade e que em sua casa a acolheu, proporcionando à infausta uma possibilidade de um novo fôlego para a sua vida. Tinha então catorze anos. Tendo-lhe sido facultada uma parca mas esmerada e honesta educação, frequentou uma escola de lavores e foi de uma forma dispersa acumulando vagos saberes que assimilou dentro das suas embotadas possibilidades. Arranjou colocação numa drogaria-herbanária, onde não tendo apresentação para atender os fregueses fazia recados e arrumações no armazém, local de irritantes emanações e intrincadas fragrâncias, no qual passou grande parte do seu tempo, cumprindo diligente as suas tarefas durante quatro anos tranquilos. Quando o incêndio deflagrou, nem caixeiros nem marçanos se lembraram que ela estava lá atrás, no seio do fogo voraz, acabando por ser resgatada por um meticuloso bombeiro, inerte, sufocada por densa e exótica mescla de vapores, resultado de estranhas reacções entre benzénicos e potássicos compostos com indecifráveis misturas de especiarias e bizarras ervas raras de obscuro propósito. A sua pele passou desde então a exibir uma tonalidade esverdeado-macilenta e a sua respiração alternava entre os silvos entrecortados por uma pieira grasnada e uns roncos arranhados numa sequência de saltos de cremalheira. Manteve no entanto, obstinada, o firme objectivo de manter as rédeas do seu destino nas suas próprias mãos, consolidando a ambição de um dia poder ser apontada como referência maior, alcançar uma posição destacada à custa das suas árduas acções e empreendimentos. Despediu-se do tutor, escreveu aos pais dando conta da sua decisão e rumou ao estrangeiro onde a então titubeante década de 50, refeita da ressaca do pós-guerra, prometia uma prosperidade imparável. Foi mandando cartas, primeiro da Suiça, depois de França; o pai morreu ao fim de dois anos, a mãe, passados 8 meses e o padrinho rumou a África onde se estabeleceu, abrindo um comércio.
Derramou-se então a ampulheta da sua pungente história e os grãos de areia dispersaram-se, consequência de um sopro, pela praia da memória das gentes.


(Continua...)


Interlúdio para Declaração de Intenções: Aos habituais e aos eventuais frequentadores do Cabo, os Ventos aqui exprimem os votos de um bom Natal e um Ano Novo pleno de serenidade


8 Comments:

Anonymous henedina said...

"Ano Novo pleno de serenidade" desejado pelo vento até se sente a acalmia.
(continua)

22 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

E Feliz Natal para si, Engenheiro.

25 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Obrigado Henedina!
Feliz época festiva para si também!... (...e um excelente 2011).

PS : Sou ferveroso adepto dos tratamentos informais. Por outras palavras, avesso à hierarquização em classes ou a qualquer prefixação /epítetização de âmbito profissional, associativo ou social. Se é questão de nome e Windtalker não servir, então que seja Paulo.

26 dezembro, 2010  
Anonymous henedina said...

http://um-blogchamadoblog.blogspot.com/

26 dezembro, 2010  
Blogger Filipa Júlio said...

um grande, GRANDE 2011!

ps - os nabos mais fotogénicos que tenho visto na blogosfera : )

28 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Obrigado, Filipa!... Com a devida retribuição : um bom 2011.
Que se venham a revelar (not the classic way!) surpreendentes instantâneos...

PS: Esborratados e metafóricos nabos fotogénicos...

28 dezembro, 2010  
Blogger henedina said...

Excelente 2011 também para si.

29 dezembro, 2010  
Blogger Windtalker said...

Obrigado Henedina!
Um óptimo e estimulante Ano Novo!...

29 dezembro, 2010  

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