06 abril, 2010

Os Sinuosos Limites do Sensato


À medida que o mundo se torna mais complexo e vertiginoso, vivemos o inusitado paradoxo de, por um lado, evoluirmos numa zona de conforto que nos permite depositar uma confiança sistemática e absoluta nas regras e padrões do nosso meio, seguros da nossa familiaridade com um saber tão abrangente que nos garante o controlo do desenrolar dos comportamentos e das acções, enquanto, por outro, nos afectam e surpreendem fenómenos e acontecimentos imprevistos e muitas vezes chocantes, ao ponto de nos rebelarmos por o nosso tão vasto conhecimento não os conseguir antecipar ou prever. Chegamos ao limite de nos insurgir com o facto de a vida ser implacávelmente injusta, ao longo da qual muito poucos de tudo dispõem e todos os imensos outros, nada ou ainda menos que isso, preocupamo-nos com os acontecimentos improváveis errados contra os quais, efectivamente, pouco podemos fazer e suspiramos, quando não sacrílegamente ansiamos, por aquele salvífico momento de sorte, que em si escandalosamente constitui uma das tais imprevisibilidades contra as quais tão denodadamente peroramos.

Ao longo deste nosso tortuoso percurso, esquecemo-nos apenas que quanto mais afastadas se posicionam as fronteiras do conhecimento, mais compridas e intrincadas elas provam ser e que o desconhecido inesperado pode surgir, como a avalanche, na próxima curva da franja. Deveríamos antes, como costumo dizer à Marta, abrandar para, durante uns segundos aqui, outros além, consolidar as ideias;
Desvalorizar os temores mais óbvios que desgastam energias e empalidecem os prazeres;
Aguçar a curiosidade testando os nossos conceitos e ideias, não deixando vulgarizar o raciocínio;
Adquirir a elegância de desprezar o destino e de dominar os nossos ritmos, rotinas e pulsões, em suma, assumir (dentro dos nossos limites) o nosso lugar no mundo.
Valorizar a introspecção e a dúvida. Reflectir, questionar e reconhecer o próprio desconhecimento, imbuídos de humildade epistemológica.


As certezas do saber, as afirmações peremptórias e a realidade como espelho da confirmação, serão então, tão claramente quanto a incerteza nos permite afirmar, meros sintomas de medianocridade.



PS :
Estas últimas duas entradas ganharam fôlego após uma tertúlia hedonística com a AIM, o JPMF e a Z. Muita influência também do N. N. Taleb e do seu “Cisne Negro”.





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