15 março, 2010

O Décimo Terceiro Livro dos Anjos


Se há cabeças cujos carretos engrenam de forma estonteante e inexplicável com resultados tão surpreendentes quanto provocadores, a de John Zorn segue com o pelotão da frente. Fiquei de tal forma impressionado após o concerto que deu há uns anos com os Naked City na Aula Magna, que profanamente inspirado, dei o nome dele ao cão lá da casa e acompanho, muitas vezes embasbacado, o que tem vindo desde então a sacar da cartola.
Torrencial e diversificado, está na origem como mentor e compositor, entre outros projectos, do notável ciclo dos “Book of Angels”, explorando a veia das tradições judaicas e das obscuras entidades que povoam a mitologia talmúdica, com a cumplicidade de alguns dos suspeitos do costume no que se refere à musica de vanguarda como, entre outros, Marc Ribot, Uri Caine, Erik Friedlander, Mark Feldman, Joey Baron, Joe Lovano e Dave Douglas, estes dois no extraordinário “Stolas”, o tomo 12 da série.
Não se contando entre os melhores da estante, o décimo terceiro volume merece referência por naturais razões numerológicas, pela graciosidade feminina trazida pelas Mycale a este universo, até aqui, quase exclusivo aos homens (excepção feita a Sylvie Courvoisier que participa em“Malphas”, o terceiro), pelo conceito refrescante de todos os temas serem versões vocais, a cappella, e por integrar um belíssimo cântico celebrando Moloch, um dos mais negros e reconhecidos anjos caídos.
Mais nenhuma razão houvesse para a evocação, bastaria a directa e esotérica inspiração do (tão) nosso poeta da alma, o Fernando Pessoa.






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