06 dezembro, 2009

A Cruzada

Com a face oculta pela viseira perra e corroída pelos verrinosos e agrestes ares de tão infames paragens, que há já largos anos teimava em libertar, pugnava o garboso cavaleiro por suas luminosas crenças, numa armadura que, agora sucata, fora em tempos a mais cintilante do Ocidente.
Após infindos meses decorridos em Terras Santas, sucumbira já a elite do seu fiel exército incluindo os mais dilectos escudeiros, que embora resguardados por elmos e escudos de nobre e temperado fino aço, se finaram empalados e esquartejados às mãos de impiedosas turbas de selvagens.
Travavam-se furiosas e sangrentas batalhas. O seu alento advinha-lhe de uma fixação obsessiva no já próximo retorno aos seus saudosos domínios, da perene imagem da sua prometida aí suspirando e ansiando pelos seus braços, virginal e implacávelmente protegida por uma cinta com ferrolho da mais inovadora tecnologia e estado da arte das ciências do reino. Compusera na sua frenética mente o auge da sua empolgante recepção, no qual a imaginava correndo ao seu encontro, o véu ondulando dolentemente, em longo lapso até ao beijo ardente, ansiosamente aguardado.
Malfadado seria no entanto, o momento em que seria forçado a confidenciar-lhe, terem as chaves do inexpugnável cadeado ficado esquecidas na argola das calças de lata.

Contes Fripons © Cabanes


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