05 dezembro, 2006

A Patafisica da Reencarnação

Cruzámo-nos no limbo.
Quando morreu, em Junho de 59, ia eu no meu terceiro mês de gestação.
De certeza que o ouvi tocar (ou cantar, declamar ou polemizar... de qualquer forma, provocador) lá nessa Internet das almas, labiríntica rede onde vão circulando os que já chegaram e os que ainda não partiram. Gosto de pensar que foi a ele que perguntei a que IP me devia dirigir. Olhou a ficha ao meu aurascoço, viu que era um .pt e indicou-me a porta do router. Recomendou-me que absorvesse alguma energia para ganhar massa pr’à viagem. Deu-me ainda umas dicas para uns bistrots e com uma gargalhada avisou:
- Se quando tiveres que ir, arrancares depressa e bruscamente, irás pela fresca, pela sombra, porque os raios do sol, com a surpresa, não te conseguirão seguir.

Boris (V), alma gémea, engenheiro, boémio, trompetista com a sua própria banda de jazz (eu não sou musico; apenas respiro bebópicamente), grande Sátrapa do Colégio da Patafisica, metafisicomático, tendo documentado o cálculo numérico de Deus, por métodos simples... amante de Paris e dos “caveaux” mágicos onde o ambiente se entranha na pele, escritor de soberbos e inverosímeis romances de amor, de novelas do absurdo real e de livros de cordel negros, poeta de intervenção e cantor pornográfico... Cultivava a liberdade das ideias e da vida.

“Je passe le plus clair de mon temps à l'obscurcir parce que la lumière me gêne. "

Devo ter escutado o seu conselho, pois nasci pr’aí à uma da manhã.
Até fisicamente, dizem, deveríamos ser parecidos...
Só que não morri aos 39...

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2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

A VIÚVA DE BORIS
Julgo que soube que ele era meu marido quando li A Espuma dos Dias pela segunda vez – pelo meio especializei-me na observação das formigas e na audição das suas canções, cantadas por ele e por outros, Je Bois, J’suis Snob, La Java des Temps Modernes, la Complainte du Progrès, e também aquelas canções celebradoras da vida, dos dias de sol, da magia das ruas da grande cidade (La Rue Watt), da beleza, do amor. Mas foi de facto quando recentemente o traduzi a pedido da Fenda (numas citações e aforismos a ele atribuídos, edição que aliás correu mal, muito mal, devendo nalgum momento ser objecto de reedição) que confirmei esse casamento espiritual extraordinário. Comunhão que me levara já a criar para um romance uma personagem chamada Boris Viana, pessoa imaginária, incerta e polifacetada que surge num cenário português salazarento cheio de ranchos e de dores (Fado Menor, Oficina do Livro 2005). Boris Viana, o poeta que anda de 28, e que quisera ser poema. Enfim, Boris.
Bem sei que nasci 5 anos depois de ele ter morrido. Que importa isso? Se tenho um marido virtual residente e invulnerável à passagem do tempo, é ele. Je t’aime chéri. N’oublie pas ton tricôt quand tu partiras ta trompinette sous le bras, il fait froid mon amour.
Não me lembro de ser assim tão carinhosa e maternal com nenhum marido real. Conclusão: um bom marido faz uma boa mulher.

05 dezembro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

p.s.- durante muito tempo julguei que morreria também aos 39, mas estranhamente continuo viva...

05 dezembro, 2006  

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