11 novembro, 2006

Noites Claras

Largou a caneta encharcada de suor e esmagou o cigarro no cinzeiro. Empurrou este um pouco para mais longe sobre a mesa, porque não suportava os seus gritos de dôr. Quando se levantou e apagou o candeeiro preto, acendeu-o de novo e desligou finalmente o branco farto das insistentes reclamações deste de já estar em brasa por ter terminado o turno. A louça por lavar dava uma festa na banca da cozinha com entrada só permitida a casais e quando passou por perto, uma esbelta mas já gasta faca e um garfo, por sinal mais baixo e atarracado que ela, admitidos de fresco, lançavam-se radiantes para a confusão. Tinham era a musica alta demais. Todos os seus ainda ordenados utensilios de cozinha o insultavam por não lhes dar condições de participar e a sua paciência chegou, finalmente, ao seu mais dilatado limite quando o copo de cerveja, ainda meio cheio de trabalho, embora semi vazio de emoções, o impeliu a despachar-se a terminá-lo para se juntar ao arraial. Atirou-o com força à parede e lá se finou deixando uma base e um inumerável numero de cacos sem sustento, que ele recolheu com sentido sentido de responsabilidade. Saiu fechando a porta.
Agarrou o livro que começara havia pouco e foi-lhe sendo revelada a paixão que este nutria por si; colava-se-lhe às mãos, as suas linhas saltavam-lhe aos olhos e todas as suas palavras e frases lhe eram transmitidas impregnadas de luxúria mas com uma capa de lascivia. Deixou-o então ficar num canto todo derretido e foi finalmente deitar-se.
Aconchegou-se bem nos lençois frescos puxando o cobertor bem ao queixo. Quando deu por ela era já tarde. Este cercara-lhe o pescoço firmemente e dois minutos mais tarde, depois de um ultimo estremeção, adormeceu.
Ficou acordado no escuro apenas ouvindo as gotas que se largavam da torneira a estatelarem-se com entusiasmo na banheira. Sentiu-se reconfortado por ser o primeiro a acordar lá em casa.
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