08 novembro, 2006

Gente do Milénio (I)

Será a classe média no século XXI o equivalente ao proletariado do século passado? Será no seu seio que germinará a revolução politica e social que moldará o futuro do Ocidente, mais concretamente da Europa? Terá ela motivos, forças, oportunidades e vontade de a fazer? Dei por mim a pensar nisto após ter terminado o compêndio de subversão que é o livro do Ballard, a especular livremente com base no exemplo português.

Será que o galopante acumular de aumentos dos impostos, da electricidade, do estacionamento, das taxas de juro, ambientais, municipais, de interioridade, de litoralidade, de circulação, entre tantas, que a ela especialmente fustiga, em conjunto com a insegurança das ruas, do emprego, do futuro (carreira, pensões, condições de vida na terceira idade) a conduzirá à revolta? E o crescente aparecimento de grupos, associações, seitas e grémios (de protecção da osga azul, do comércio da banha-da-cobra, da liberalização de morais e de éticas, do alfa e do ómega), não representará tal fenómeno, um dos sintomas dessa insatisfação fervilhante? Com o autor, sou levado a concluir que, como conceito teórico, a indignação teria todas as condições para medrar e consequentemente florescer num tumulto, mas na prática, pelo menos de uma forma persistente e num período prolongado e continuado no tempo, a sua concretização é muito mais dificil, por uma variedade de razões avulsas que entretanto se me foram tornando evidentes, ajudado por alguns editoriais do jornal “PUBLICO” do passado fim de semana:

  • A classe média está demasiado confortável e acomodada nos seus previlégios, nos seus “health clubs”, com as suas férias no Nordeste (J.M.Fernandes dixit, in PUBLICO, 29.10.2006), os seus “gosto” médio e “arte” média” (J. Fiadeiro dixit, in PUBLICO, 29.10.2006), estimulada por elites formadoras e condicionadoras.
  • Ela arrisca algumas extravagâncias como forma de sobressair, como auto-referência e do seu circulo mais próximo. As suas intervenções cívicas, sociais e políticas podem ser comparáveis aos seus raides de “Jeep” em fins de semana TT, às suas actividades radicais, à sua participação iniciática em ciclos temáticos supostamente restritos, cujas obras de interpretação múltipla originam exaltações (J. Moura comentou, in PUBLICO 29.10.2006). Aquela sensação de irreverência para afagar consciências.
  • Mais preponderante que os pontos acima, o “sistema” (já quase nos tínhamos esquecido dele!...) que não a deixa sair dos carris. Haverá sempre uns media convenientemente orientadores (onde andam, neste Outono, as aves com gripe?), entretenimento polémico qb para satisfazer as opiniões divergentes, revistas de vinhos, de viagens, de carros, de decoração, sempre dispostas a ajudar o leitor a escolher o que mais se adequa ao seu gosto e interesse (sim, o leitor gosta de saber antes dos outros, quais as tendências das novas modas).
  • Os grupos, seitas, grémios e associações a que pertencem, embora os favoreçam notóriamente na sua competição com os demais, não hesitarão em triturá-los quando o “sistema” assim o exigir. E fá-lo-ão pura e simplesmente porque eles próprios se sustentam no próprio “sistema”.

(Continua)

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