03 setembro, 2007

Rescaldos

A FNAC era percorrida por vagas indistintas e viscosas de gente lesmática, amorfizada pelo refúgio fresco desta quente tarde, quando te entrevi. Perturbei o lamacento caudal humano, parei, sorrindo como afortunada personagem e por detrás da prateleira saboreei os teus movimentos de mãos, que seguravam o Hargrove com curiosidade; avançaste com semblante interessado em busca da estante seguinte...com o fortuito encontrão no girino com óculos que te abalroou, viraste a cabeça e os teus olhos faíscaram quando riscaram os meus. Puseste o teu ar mais atrevido e continuaste, como se não nos conhecêssemos. Quando paraste, já mais clássica, no Mahler, ao passar lentamente por ti senti-te estremecer quando fiz a minha mão deslizar pela tua cintura de pele doce, por baixo do corpete largo que vestias ... e no M há tantos imortais!!! Ali ao lado, agarrei num CD de Mendelsohn (o “Midnight Summer Dream”, que feliz acaso!!) e fingi denodadamente que o estudava em profundidade. Deixaste o Gustav, ultrapassaste-me fazendo roçar o teu braço pelo meu e dedicaste-te aprofundadamente à vastidão de Mozart. Não consegui chegar a Mussorgsky...confirmei num flash que a restante mole fnáquica vogava absorta, entretida com seus botões e parei por trás de ti, beijei-te o pescoço com todo o sumo da minha boca, enquanto meus dedos frenéticos harpejavam, virtuosos, os teus quadris irrequietos e o teu ventre palpitante.
Os ínfimos segundos deste nosso fotograma, deixaram-me incandescente.Já com os “Quadros de uma Exposição” nestas mãos agora tão orquestrais, verifiquei que tentavas abrandar o teu ritmo de fôlego e que tinhas estalado entre as tuas a caixa da 41ª do Wolfgang A. Dei-te espaço, afastei-me até ao Prokofiev e entrevi o teu olhar guloso enquanto vinhas na minha direcção; e quando te colaste a mim e senti o calor da tua mão dentro do meu bolso, abafei o meu resfolgar e o “Pedro e o Lobo” caiu ao chão.
Já no canto da secção BD, beijámo-nos deleitadamente numa centelha temporal, durante a qual, apenas uma idosa que lia uma receita de chocolate num livro de culinária, suspeitou que nos poderíamos conhecer...


kiss©olivier marcouiller


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