21 maio, 2007

Energias Esverdeadas

Temos andado a ser tranquilizados com o novo ovo de Colombo energético que vai contribuir para o continuado desafogo e conforto deste nosso insaciável ocidente, o biocombustivel.
É um facto que tudo o que tem sido dito é promissoramente verdadeiro - aligeira os encargos e dependência dos seus parentes fósseis, mais amigo do ambiente que estes, melhor eco-eficiência e via priveligiada para a reciclagem de resíduos industriais e domésticos, vide óleos usados – e tão elementarmente simples - qualquer um o pode fazer no seu quintal das traseiras - , mas também costumo ser acometido por uma certa azia quando me querem fazer tragar soluções perfeitas, nem que seja em prol do (nosso) ambiente (confirmar este meu mau feitio nas Eologias).
Primeiro, não é barato; afinal um litro de biodiesel é mais caro que um litro de gasóleo de marca registada. Mais curiosa é a sua componente sócio-desestabilisadora sobretudo quando o tema é devidamente polvilhado com demagogia política.
Assim, o objectivo passa por, no que respeita ao gasóleo e a curto prazo, a integração de uma minúscula parcela de 5% de biocoiso, em todo o produto despachado para o mercado. A realidade sendo mais implacável, de um ponto de vista de matéria prima, para atingir esta produção seria necessário plantar todo o Alentejo com soja, milho ou algo que o valha. Como a viabilidade desta estratégia (afinal sempre é possível delinear mais uma estratégia para o Alentejo!) , que bem vistas as coisas pode ser extrapolada aos nossos parceiros europeus e americanos, é no mínimo virtual, aí vamos nós em romagens ao terceiro mundo explicar-lhes a excepcional oportunidade de que dispõem para equilibrar as suas raquíticas finanças, caso se decidam a produzir e exportar o milho e a soja, sendo a isso inclusivamente persuadidos com um complemento de ajudas e fundos muito oportunos.
E o mercado evoluirá nos seus meandros; e essas “espécies agrícolas” que servem de base à alimentação dos modestos indígenas verão os seus preços disparar, em plena confirmação de bem comprovadas teorias económicas, com base na oferta e na procura.
A esse desafio responderão dinâmicos empreendedores que promoverão a massificação do cultivo, aproveitando inclusivé o extraordinário dois em um que consiste em vender exóticas madeiras de equatoriais florestas e plantar a perder de vista, vastos campos deste novo ouro verde.
E aos longíquos povos, tão simpáticos ou coitadinhos (dependendo do sítio) nas fotografias e reportagens da nossa vigilante imprensa, será muito mais difícil pagar o sustento da família, pois o seu milho valerá muito mais se alimentar os nossos indispensáveis automóveis.
E os simpáticos/coitadinhos serão levados a pensar : se eles vivem melhor e até dão o milho a comer aos carros, porque não havemos nós também de ir até lá?


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Ainda tenho esperanças de ver com estes olhos genuinamente biodegradáveis o grande milagre energético do Ocidente. Consigo até muito bem imaginar o Bionuclear, pelo qual excrementos de coelhos irradiados serão a fonte das micro pilhas atómicas que inesgotávelmente farão girar o mundo.

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