03 fevereiro, 2007

Baudelaire tinha um blog!

...ou preocupações e susceptibilidades de um dandy misógino.


As nações apenas possuem grandes homens sem a sua intervenção – como as familias. Fazem todos os esforços para não os ter. E, assim, o grande homem precisa, para existir, de possuir uma força de agressão maior do que a força de resistência desenvolvida por milhões de individuos.

O que há de inebriante no mau gosto é o prazer aristocrático de desagradar.

A crença no progresso é uma doutrina de preguiçosos, uma doutrina de
Belgas. É o individuo que conta com os vizinhos para fazerem o seu trabalho.
Não pode haver progresso (verdadeiro, isto é moral) senão no individuo e pelo próprio individuo.
Mas o mundo é feito de gente que só pode pensar em comum, em bandos.

Teoria da verdadeira civilização. Não está no gás, nem no vapor, nem nas mesas giratórias. Está na diminuição dos vestigios do pecado original.
Povos nómadas, pastores, caçadores, agrícolas e até antropófagos, todos, podem ser superiores pela energia, pela dignidade pessoal, às nossas raças do Ocidente.
Estas serão talvez destruidas.
Teocracia e consumismo.

O mundo só caminha através do mal-entendido.
É através do mal-entendido universal que toda a gente se põe de acordo.
Porque se, por infelicidade, as pessoas se compreendessem, nunca poderiam pôr-se de acordo

É impossivel percorrer uma qualquer gazeta, seja de que dia fôr, ou de que mês, ou de que ano, sem aí encontrar, em cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as presunções mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, e as afirmações mais descaradas, relativas ao progresso e à civilização.
.....
E é com este repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a sua refeição de todas as manhãs.


NOTA : Dispensei desta resenha apreciações sobre as mulheres, religião e personalidades várias, alvos de um particular carinho do bloguista.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olá Windtalker,

Em estreia universal, arrisco imaginar o comentário de Philip Roth a outras reflexões de Baudelaire, como esta, cujo tema é tão querido a Roth:

"Em cada minuto somos esmagados pela ideia e a sensação do tempo. E apenas existem dois meios para escapar a tal pesadelo, para esquecê-lo: o prazer e o trabalho. O prazer gasta-nos. O trabalho fortifica-nos. Escolhamos.
Quanto mais nos servimos de um destes meios, mais o outro nos inspira repugnância."

Charles Baudelaire, in 'Diário Íntimo'

Como seria delicioso poder lê-los a esgrimir ideias, razões...esmagador... Roth ganharía de longe, não te parece? Ainda p'ra mais de dandy não tem nada!!!

Hot wings

03 fevereiro, 2007  
Blogger Windtalker said...

Um desafio demasiado estimulante!!... O pragmático provocante e o dandy inconveniente... misóginos de estilos antagónicos na forma mas tão dependentes dos objectos do seu “amor-ódio”... os respectivos desconfortos ante a religião e a sociedade, os seus pares e a crítica... Um embate de “titãs”. Enquanto admito que Baudelaire tivesse mais versatilidade e oratória para os seus ataques venenosos, concordo com o especulador: a frieza e aguçada perspicácia, a implacável, imprevisivel e cosmopolita amoralidade do Roth, ganham aos pontos...

04 fevereiro, 2007  

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