26 janeiro, 2007

Circularidades I _ Derivas

Conheceram-se por acidente, encalhados num baixio das torrentes do acaso. Quando finalmente se soltaram, deixaram-se arrastar pelo turbilhão dos sentidos desgovernados e deram por si desaguando num desconhecido e imenso mar, cujas ondas de sublime arrebatamento os devolveram à praia, já no céu as estrelas feneciam. Prometeram-se o reencontro, o reviver, o pulsar e o sentir de novo...mas os dias foram passando...

...devagar. Tão devagar que como que deixavam rasto nos seus corpos apartados e marcas na memória das emoções. A vida, desenfreada de rotina, entretanto, ia-se impondo à suave réstea de luz que lhes mantinha os espíritos em comunhão...e os ciclos dos amanheceres foram acelerando quase sem darem por isso.
Voltaram, em horas desacertadas, àquela praia, sorvendo a maresia e os pólens da espuma que ainda retinham os cheiros, o sal, a humidade quente dos corpos. Unicamente um velho pescador, com aquela imponderabilidade temporal que se imprime na paisagem, disfrutou inadvertidamente da suprema sintonia de partilhar o mesmo espaço, de trocar uma saudação, com cada um dos dois, em menos de uma hora de intervalo...
Encontraram-se alguns meandros adiante num clube de jazz. Ele inebriado, ela sublimada, olharam-se, tocaram-se com o sentimento de irrealidade das partidas que o destino reparte,...nas mãos, na face, nos lábios...Saíram para a límpida lua com um largo hiato e uma musica arrebatadora a perturbá-los. Consumaram, consumiram-se lenta e longamente, em brasa, incandescentes de refrescante volúpia.


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Nessa noite, o velho pescador não voltou para casa.

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